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Acreditações na ginástica: proteção do evento ou controlo da imagem?

Nos últimos anos, as regras de acreditação para fotógrafos em provas de ginástica — especialmente na ginástica acrobática — tornaram-se cada vez mais restritivas, mas sem que exista verdadeira clareza, transparência ou igualdade de critérios. O problema não está apenas nas limitações impostas. Está sobretudo na falta de explicações objetivas sobre quem pode fotografar, porquê, e em que condições pode depois utilizar ou comercializar essas imagens.

Em Portugal, a situação agravou-se recentemente com a Federação de Ginástica de Portugal criado um novo ponto indicando que apenas o fotógrafo acreditado pela FGP e colaboradores da  “Ginástica TV” podem captar imagens nas competições. A própria federação promove oficialmente a Ginástica TV como canal institucional. Quando a mesma entidade que regula o acesso às imagens possui também interesses diretos na exploração comercial dessas transmissões e conteúdos, é inevitável que surjam dúvidas sobre imparcialidade e concorrência justa.

Naturalmente, qualquer federação tem o direito de organizar os seus eventos e definir regras de media. O problema surge quando essas regras parecem servir não apenas a organização do evento, mas também a proteção de plataformas próprias com receitas comerciais associadas. Quando se impede fotógrafos independentes de trabalhar enquanto os canais oficiais mantêm exclusividade de imagem e monetização, cria-se uma sensação evidente de conflito de interesses.

A questão torna-se ainda mais delicada na ginástica acrobática, uma modalidade que depende fortemente da divulgação visual. Atletas, clubes e famílias vivem destas memórias. Muitos fotógrafos especializados acompanham a modalidade há anos, promovem-na gratuitamente nas redes sociais e ajudam a dar visibilidade internacional aos ginastas. Limitar drasticamente a cobertura independente pode acabar por prejudicar precisamente a promoção que as federações dizem querer proteger.

No caso da European Gymnastics, o cenário é ainda mais ambíguo. A responsável Tina Gerets remete frequentemente para um regulamento de media publicado online. Contudo, na prática, esse regulamento parece funcionar sobretudo dentro de um círculo restrito de operadores habituais. Quando questionada pela Sport2Me sobre que tipo de acreditações possuem determinados fotógrafos que depois vendem imagens em sites públicos, não foi dado qualquer esclarecimento concreto.

Essa ausência de transparência levanta perguntas legítimas:

  • Existem diferentes níveis de acreditação?
  • Quem decide quem pode vender imagens?
  • Porque podem alguns operadores comercializar fotografias e outros não?
  • Quais são os critérios objetivos de seleção?

Sem respostas claras, instala-se inevitavelmente a perceção de favorecimento.

Também em provas nacionais começam a surgir situações preocupantes. Recentemente, numa competição organizada pelo Acro Clube da Maia, foi colocado um vigilante ao lado de uma pessoa do público que estava a captar imagens.

A partir desse momento, durante a própria prova, começaram  a ser alteradas orientações relativas à captação de imagens, apesar das condições inicialmente indicadas nos bilhetes de acesso ao evento.

 

Importa recordar que um dirigente do clube, Rui Osório, tem interesses pessoais na área da fotografia, sendo inclusivamente o responsável pela captação de imagens da competição. Esta coincidência torna ainda mais importante a existência de regras claras, transparentes e iguais para todos os operadores.

Segundo informação recolhida pela Sport2Me, existem ainda reclamações de clientes relativas a imagens adquiridas em provas do clube que alegadamente nunca chegaram a ser disponibilizadas aos compradores. Embora estas situações devam naturalmente ser esclarecidas pelas entidades envolvidas, contribuem para aumentar o desconforto em torno da forma como o acesso e a comercialização de imagens estão atualmente a ser geridos em algumas competições.

O mais paradoxal é que tudo isto acontece em Portugal, com fotógrafos portugueses a tentarem exercer a sua atividade no seu próprio país. Profissionais que acompanham a modalidade há anos, investem milhares de euros em equipamento, deslocações e cobertura especializada, acabam frequentemente por encontrar mais oportunidades e reconhecimento fora de Portugal do que dentro dele.

Muitos destes fotógrafos trabalham hoje quase exclusivamente em provas internacionais, onde são valorizados pela qualidade do trabalho que apresentam e onde a sua presença é vista como um contributo para a promoção da modalidade — não como uma ameaça comercial.

E isto acontece precisamente numa altura em que a ginástica acrobática procura crescer internacionalmente e alimentar ambições de integração futura nos Jogos Olímpicos. Limitar a divulgação independente, afastar fotógrafos especializados e criar ambientes de exclusividade pouco transparentes parece ir no sentido oposto daquilo que uma modalidade em crescimento deveria procurar.

O mais preocupante é que estas restrições acabam por atingir sobretudo os fotógrafos especializados da modalidade — precisamente aqueles que estão presentes prova após prova, muitas vezes sem qualquer apoio institucional, investindo em equipamento, deslocações e promoção da ginástica.

Nenhuma federação ou clube deve ser obrigado a abrir completamente os seus eventos. Mas quando existem limitações tão fortes à captação de imagem, os critérios têm de ser públicos, transparentes e aplicados de forma igual para todos. Caso contrário, a acreditação deixa de parecer uma ferramenta de organização e passa a parecer um mecanismo de controlo comercial da imagem do desporto.

E isso é perigoso para a liberdade de imprensa, para os profissionais independentes e, no limite, para a própria visibilidade da ginástica.

Texto e Imagem: Pedro Rodrigo Coelho

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