O Campeonato do Mundo de Ginástica Acrobática arrancou em Pesaro com um cenário que diz muito sobre o estado da modalidade: bancadas quase vazias no primeiro dia de qualificações. Nos pares, grupos e trios, atletas que treinaram anos para chegar a este palco apresentaram elementos de enorme dificuldade perante filas e filas de cadeiras desocupadas. Os aplausos que se ouviam tinham quase sempre a mesma origem: treinadores, colegas de equipa e, sobretudo, pais.
É um contraste difícil de ignorar para quem acompanhou o último Mundial de Ginástica Rítmica, em Frankfurt. Aí, o pavilhão encheu. Havia bandeiras, cânticos, grupos organizados de adeptos e público que tinha pago bilhete sem qualquer ligação direta a uma atleta em competição. A rítmica foi tratada como espetáculo. A acrobática, em Pesaro, parece tratada como assunto de família.
The Acrobatic Gymnastics World Championships opened in Pesaro to a scene that says a great deal about the state of the sport: nearly empty stands on the first day of qualifications. Pairs, groups and trios who have trained for years to reach this stage performed elements of enormous difficulty in front of row after row of empty seats. The applause, when it came, almost always had the same source: coaches, teammates and, above all, parents.
It is a contrast hard to ignore for anyone who followed the last Rhythmic Gymnastics World Championships in Frankfurt. There, the arena was full. There were flags, chants, organised groups of supporters and spectators who had paid for tickets with no personal connection to any athlete on the floor. Rhythmic was treated as a show. Acrobatic, in Pesaro, seems to be treated as a family affair.
Não é falta de espetáculo
O paradoxo é que a ginástica acrobática é talvez a disciplina mais imediatamente impressionante de toda a ginástica. Não é preciso conhecer o código de pontuação para perceber o que está a acontecer quando uma atleta é projetada no ar, roda e é recebida pelas mãos dos parceiros. As pirâmides humanas, os equilíbrios em que uma ginasta se sustenta sobre uma única mão de outra, a sincronização entre corpos de tamanhos tão diferentes: tudo isto é visualmente acessível, dramático e arriscado. Em teoria, deveria ser um produto fácil de vender.
Então porque é que o público paga para ver rítmica e não aparece para ver acrobática?
Olímpica ou não olímpica
A resposta mais evidente está nos Jogos Olímpicos. A rítmica é modalidade olímpica desde 1984; a acrobática continua de fora. Essa diferença contamina tudo o resto: financiamento das federações, cobertura televisiva, patrocínios, estatuto das atletas e, por arrasto, reconhecimento do grande público. Quem vê rítmica nos Jogos de quatro em quatro anos sabe o nome de algumas ginastas e cria afinidade com países e estilos. Na acrobática, essa porta de entrada praticamente não existe.
A rítmica também beneficia de nações com grande tradição e base de fãs mobilizável, e de uma estética que atrai um público que vai além da própria ginástica. Os grupos de adeptos que encheram Frankfurt não surgiram do nada: resultam de décadas de visibilidade.
Um problema de promoção, não de mérito
Mas culpar apenas o estatuto olímpico seria demasiado cómodo. O vazio das bancadas é também reflexo de quem organiza e promove estes eventos. Para que um Mundial encha, a comunidade local precisa de saber que ele existe, de perceber o que vai ver e de sentir que vale o bilhete. Isso exige campanhas nas escolas e clubes da região, parcerias com meios de comunicação, preços acessíveis ou entrada gratuita nas qualificações, e horários pensados para o público e não apenas para a logística da competição.
Há ainda o desafio de contar histórias. O público liga-se a pessoas, não a elementos técnicos. Na acrobática, cada par ou grupo traz uma narrativa rica: parceiros que treinam juntos durante anos, a confiança absoluta necessária para um lançamento, a diferença de idades e de gerações dentro da mesma unidade. São histórias que raramente chegam cá fora.
Quem perde
Perdem os atletas, que merecem competir num ambiente à altura do seu nível. Perdem as federações, que precisam de visibilidade para atrair patrocinadores e novos praticantes. E perde o próprio movimento que tenta levar a acrobática ao programa olímpico, porque um desporto que não enche pavilhões num Mundial tem mais dificuldade em convencer quem decide.
Os pais nas bancadas de Pesaro fizeram o que sempre fazem: apoiaram, filmaram, vibraram com cada elemento bem executado. Mas não deveriam ser os únicos. Ainda há dias de competição pela frente, com as finais a prometer os momentos mais espetaculares do campeonato. Seria uma boa oportunidade para o público descobrir aquilo que tem estado a perder.
Not a lack of spectacle
The paradox is that acrobatic gymnastics may be the most instantly impressive discipline in all of gymnastics. You don’t need to understand the code of points to grasp what is happening when an athlete is launched into the air, rotates and is caught by her partners’ hands. The human pyramids, the balances in which one gymnast holds herself on a single hand of another, the synchronisation between bodies of such different sizes: all of it is visually accessible, dramatic and risky. In theory, it should be an easy product to sell.
So why do people pay to watch rhythmic gymnastics but stay away from acrobatics?
Olympic or not Olympic
The most obvious answer lies in the Olympic Games. Rhythmic gymnastics has been an Olympic sport since 1984; acrobatic gymnastics remains outside. That difference affects everything else: federation funding, television coverage, sponsorship, the status of the athletes and, as a result, recognition from the general public. People who watch rhythmic gymnastics at the Games every four years know the names of some gymnasts and develop an attachment to certain countries and styles. In acrobatics, that entry point barely exists.
Rhythmic gymnastics also benefits from nations with deep tradition and a mobilisable fan base, and from an aesthetic that draws an audience beyond gymnastics itself. The supporters who filled the arena in Frankfurt did not appear out of nowhere: they are the product of decades of visibility.
A promotion problem, not a question of merit
But blaming Olympic status alone would be too convenient. The empty stands also reflect on those who organise and promote these events. For a World Championships to fill up, the local community needs to know it is happening, understand what it will see and feel the ticket is worth it. That requires outreach to schools and clubs in the region, media partnerships, affordable prices or free entry for qualifications, and schedules designed for the public rather than purely for competition logistics.
Then there is the challenge of storytelling. Audiences connect with people, not technical elements. In acrobatics, every pair or group carries a rich story: partners who have trained together for years, the absolute trust required for a throw, age gaps and different generations within the same unit. These are stories that rarely reach the outside world.
Who loses
The athletes lose, because they deserve to compete in an atmosphere worthy of their level. The federations lose, because they need visibility to attract sponsors and new participants. And the movement trying to bring acrobatic gymnastics into the Olympic programme loses too, because a sport that cannot fill an arena at a World Championships will struggle to convince the people who make those decisions.
The parents in the stands in Pesaro did what they always do: they cheered, filmed and celebrated every well-executed element. But they should not be the only ones. There are still days of competition ahead, with the finals promising the most spectacular moments of the championships. It would be a good opportunity for the public to discover what it has been missing.
Photo: Pedro R. Coelho. |. www.prcoelho.pt

